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A atleta que gritou ‘sexismo!’

15 de setembro, 00:30

Prefiro que me tomem por sexista a que descubram que sou incompetente.

Estou à espera do ‘Prolongamento’ para finalmente ver uma análise bem feita sobre a final do Open dos EUA. Se alguém tem experiência em discutir arbitragem em termos morais, são aqueles senhores. Basta adaptar a linguagem e em vez de ‘Ó Sousa Martins, este árbitro é corrupto!’, dizerem ‘Ó Sousa Martins, este árbitro é sexista!’ Segue-se o costumeiro regabofe.

Reduzir o que se passou a ‘sexismo’ não só desresponsabiliza Serena Williams, como também o próprio árbitro. Neste ambiente, não se consegue debater a capacidade de Carlos Ramos. Não se admite a hipótese de ter decidido, bem ou mal, por profissionalismo ou incompetência. Se a decisão prejudica uma mulher, só pode ter sido por misoginia. Não há decisão correcta ou errada, só preconceituosa.

Por mim, tudo bem. Se a acusação de sexismo é banalizada, prefiro que me tomem por sexista a que descubram que sou incompetente. É melhor o Director dizer- –me: ‘Ó Quintela, esta crónica é uma bosta! Não sabes escrever!’ e e eu poder responder: ‘Parece que não sei, mas é por ser machista. Não sou incompetente, tenho é más intenções’.

Einstein disse que só há duas coisas infinitas, o Universo e a estupidez humana. Infelizmente, faleceu antes de descobrir a terceira: a argumentação de que algo é sexista. Não tem fim.

‘Carlos Ramos quis prejudicar uma mulher! Machista!’
‘A beneficiada também é mulher’.
‘Mas a homens não marca aquela falta! Machista!’
‘Já marcou ao Nadal’.
‘Mas não numa final! Machista!’
‘Já, ao Murray’.
‘Mas nem se levanta e fala de cima para baixo! Machista!’
‘O árbitro está sempre sentado numa cadeira alta’.
‘Mas tem mesmo cara de machista! Machista!’

É uma matriokska de acusações de sexismo. A única forma de parar esta ideologia identitária é usá-la a seu favor. Se Carlos Ramos quiser deixar de ser considerado machista, diga que, ao penalizar Serena por coaching, foi ainda mais feminista que ela. Afinal, condicionada por décadas de opressão patriarcal, Serena acha normal receber instruções de um homem! Carlos Ramos pôs fim à subjugação. É um herói.

O problema do rapaz que gritou ‘lobo!’ teria sido resolvido se, em vez disso, tivesse gritado ‘sexismo!’ De certeza que os camponeses viriam todas as vezes, mesmo se tivessem a certeza que não houvera sexismo nenhum. É que duvidar de quem grita ‘sexismo!’ também é sexismo. O puto podia gritar até ficar rouco.

A situação está a descontrolar-se, saltam acusações de todo lado. Ainda há dias tive uma cena muito desagradável no supermercado. Ao pagar envolvi-me numa altercação e acusaram-me de sexismo: ‘Só fazes isso por eu ser mulher! Machista!’ Tive de dizer: ‘Faço isso porque já comeste Oreos que cheguem, porque tens 7 anos e porque sou teu pai’.

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