em destaque

A casa abandonada

12 de agosto, 00:30

Um verdadeiro planeamento da prevenção permitiria salvar casas em Monchique.

Causa alguma indignação, e até algum incómodo pela insensibilidade a raiar o desumano, escutar um primeiro ministro vangloriar-se das grandes vitórias sobre os incêndios, depois de termos vivido o maior incêndio de que, até agora, houve registo na Europa.

A euforia por não ter morrido ninguém leva a tratar com desprezo as casas que arderam e a ser indiferente a quase trinta mil hectares de área destruída. Compreendo este alívio com a ausência de vítimas mortais. O ano passado houve cadáveres a mais e é bom que não se percam vidas num desastre, seja ele qual for.

Porém, esse suspiro de alívio, não é uma vitória. Os meios recrutados, comprados, alugados, fazendo o fogo um negócio de muitos milhões, não tinham apenas como objectivo salvar vidas. Aliás, a maioria delas salvas pela GNR, mas de combater o incêndio. Não permitir que chegasse à proporção da catástrofe. E chegou. Salvaram-se vidas físicas, permitiu-se a destruição de vidas no sentido existencial do termo.

É certo que abandonar casas ameaçadas pela voracidade das chamas é uma decisão adequada. Mas também é verdade, que um verdadeiro planeamento de prevenção, teria assegurado a sobrevivência dos lares destruídos. Estão mapeados, sabe-se quem lá vive, dá trabalho mas não é difícil proteger as vidas e também este preciso bem porque a casa incorpora vida, muitas vidas, sendo o santuário da memória afetiva.

Uma casa, não é apenas paredes e telhado. Ali se abrigam os pedaços mais significativos, os testemunhos mais comoventes, os símbolos de maior significação da vida que se viveu.

Se a Protecção Civil compreender isto, se ao governo restar um mínimo de cultura humanista, e não apenas propaganda e tacticismo, forçosamente tirarão uma importante lição do incêndio de Monchique. Não basta salvar vidas. É fundamental salvar as casas. Porque elas são as pessoas. A sua memória, o seu afecto, afinal de contas, um testemunho da Vida.

comentários

comentar
Faltam 350 caracteres