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A paciência de Chen

09 de dezembro, 00:30

Num fim-de-semana, Chen lobriga An a beijocar o bárbaro português.

An chega a Portugal com 8 anos. Filha única de Chen e de Chun, chineses de Cantão, An (que significa ‘graciosa’) é inscrita na escola do bairro. An, agora Ana, aprende rapidamente o português. Antes e depois das aulas, An ajuda os pais na loja de artigos baratos e variados, a genuína ‘loja do chinês’. É a tradutora de serviço à família.

Chen (tesouro) e Chun (primavera) são chineses tradicionalistas, instados a fazerem pela vida na terra de Jorge Álvares, o primeiro português a visitar o Sudeste da China, em 1513. Herdeiros de uma cultura milenária e sofisticada, sabem há pouco tempo que, pelos recantos do Ocidente, chamam China ao seu imenso país. Há 2300 anos, a dinastia Cin unifica um enorme território a que chama Zhongguo. As riquezas do império atraem comerciantes árabes e europeus.

Os árabes chamam à região Cin. Os venezianos chegam depois e adaptam o nome de Cina, que se pronuncia China. A maioria dos chineses não sabe ainda hoje que o resto do Mundo dá a Zhongguo o nome de China. No fundo, Zhongguo significa ‘Reino do Meio’, ou seja, o centro do Mundo. O resto são arredores povoados por bárbaros, de Lisboa a Moscovo e Nova Iorque.

An faz-se uma adolescente alegre, inteligente e, aos olhos bem abertos dos rapazes, irradia uma beleza exótica. O pai Chen segue preocupado as amizades da filha com os jovens bárbaros indígenas. E sorri à chegada dos compatriotas pesos-pesados que compram a EDP, mais seguradoras e bancos.

Sábio, evita cair na tentação da inveja quando vê os ricos de Xangai e Hong Kong investirem em ‘vistos gold’ com a compra de casas por 1 milhão de euros. Venerador dos espíritos dos ancestrais, Chen e Chun ainda morrem de medo de fantasmas.

Supersticiosos, fogem do número 4 (que significa ‘morte’) e nunca viajam no sétimo mês do calendário chinês, o mês dos fantasmas. Aliás, nunca estendem roupa à noite, porque os fantasmas podem atacar, nem nunca tomam banho de mar, porque muitos fantasmas vivem nos oceanos.

Mas An perde o medo aos fantasmas e começa a namorar Miguel, colega sedutor e extrovertido. Num fim de tarde romântico, Chen lobriga a sua An a beijocar o bárbaro português. Quer morrer de vergonha. Em menos de nada, recambia An para a aldeia cantonesa. An chora de amor e saudade.

O pai Chen manda-a continuar os estudos de português em Macau. Esta semana, com a devida paciência de chinês, Chen aguenta a imensa fila provocada no IC19 pela chegada do seu Presidente Xi Jinping a Lisboa. Chen espraia o ancestral sorriso enigmático. Está na altura de chamar An para Lisboa.

Afinal de contas, a jovem fala bem português e já casou com um chinês.

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