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A reconfiguração da luta de classes

09 de dezembro, 00:30

O que se vê em paris anuncia uma confluência explosiva entre a política do povo e a dos populiststas.

A velha luta de classes entre proletariado e burguesia morreu porque a economia, a sociedade e as relações internacionais mudaram dramaticamente nas últimas décadas. A luta de classes reconfigurou-se: os pobres e também a classe média irmanam-se em torno de reclamações concretas contra um sistema político que consideram servir uma pequena minoria de plutocratas unidos ao poder político.

Consideram que a democracia foi capturada por uma elite privilegiada. O discurso dos coletes amarelos é o mesmo dos anarquistas do movimento Occupy Wall Street, em 2011: há 99% de um lado, incluindo, portanto, a classe média; e 1% do outro. A esta percepção, os coletes amarelos juntam a de Paris símbolo e centro desse poder que oprime a "França profunda".

Manifestações e desacatos não precisam de vencer nas ruas para pressionar o poder político a tomar ou a reverter decisões. Acontece por todo o mundo há muitos séculos. Aconteceu em Paris com o Maio de 68, que tanto influenciou a evolução política e social no Ocidente.

Os coletes, com quem Macron não soube lidar politicamente até agora, inscrevem- -se na política do povo, feita à margem das estruturas políticas tradicionais. A política do povo é a expressão mais ou menos momentânea de certas reclamações populares não correspondidas pela elite. Por vezes, o povo, com sentido de oportunidade, aproveita para se colar a algumas dessas organizações tradicionais. Outras vezes são estas que se encostam ao povo. Sucede com o populismo.

É uma peculiaridade da política actual que ninguém se declare "populista". São outros políticos, comentadores, politólogos, jornalistas e cidadãos quem lhes chama assim: não se chama populistas aos populares, o que seria uma redundância, mas aos que são ou querem ser seus líderes, geralmente políticos que fazem parte da elite, mas fazem o discurso anti-elite para conquistar o poder e o manter. Foi assim até agora.

O presidente do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), Alexander Gauland, publicou em Outubro um artigo que passou despercebido em Portugal, em que se declara populista, ele que está há décadas no sistema político alemão; reclama representar a maioria do povo numa sociedade resultante de novas fracturas: os globalistas urbanos, classe média sem casa certa nem pátria; e o povo vítima da globalização, sem ter para onde ir e tendo de receber imigrantes que não quer na sua terra. Esta visão tremendista e exagerada corresponde em parte à realidade, atraindo um número crescente de cidadãos. O que se vê em Paris anuncia uma confluência explosiva entre a política do povo e a política dos populistas.

Os telemóveis aliados do jornalismo
Um homem agride a mulher no meio da rua; um formador da GNR, super-protegido, bate à vontade no formando; motim na Penitenciária: estes eventos de violência têm em comum terem sido filmados com telemóveis por cidadãos. Próximos no tempo, mostram a relevância adquirida pelas imagens de cidadãos na sociedade mediática.

Quem filma não é jornalista ou profissional, é uma testemunha ocular, que faz do telemóvel uma extensão dos olhos. São como as outras fontes do jornalismo, mas com o valor visual, acrescido, de confirmação de verdade dos eventos que a sociedade já não atribui aos testemunhos verbais, que podem ser e são amiúde desmentidos.

As imagens de cidadãos adquirem importância, não só pelo valor acrescido de verdade, mas porque a TV precisa de imagens e lhes dá enorme divulgação. Mesmo sem qualidade técnica, democratizam a mostração da realidade na TV e obrigam instituições, como as do Estado, a reagir em vez de desprezar os envolvidos.

A fábrica que produz sonhos é mesmo fábrica
Indústrias peculiares, cinema e TV produzem sonhos: os filmes, as séries, as novelas. Mas são também fábricas onde os novos proletários, como os técnicos da fábrica de novelas da TVI, a Plural, trabalham 12 horas sem compensação adequada. Fizeram greve, uma das muitas greves que há hoje e haverá nos próximos meses. "Portugal está melhor"?

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