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Ainda vale a pena comentar a RTP?

14 de outubro, 00:30

A RTP tem grupos, grupinhos, conspirações, rumores, facadas, interesses pessoais.

A RTP é uma empresa esquizofrénica. À cultura de empresa, que só existe nos seus trabalhadores dedicados às suas ideias de "serviço público", opõe- -se uma incultura de empresa. Tem grupos, grupinhos, conspirações, rumores, facadas, interesses pessoais. Para essa incultura de empresa contribuem dois factores: a esclerose de apêndice do Estado, com procedimentos administrativos abstrusos (tantas vezes pisados), com emperramentos burocráticos; e a sua perene servidão voluntária ao poder político. Uma administração nomeada por um governo logo se coloca de joelhos face ao seguinte. Almerindo Marques e os seus acólitos na administração, entre os quais o actual presidente, Gonçalo Reis, serviram tão bem o PSD como o governo PS de Sócrates. E o mesmo se pode dizer da actual administração.

Num quadro esquizofrénico, não pode competir com os concorrentes. Enquanto a RTP está a "ponderar", os concorrentes estão a fazer. A competição agrava-se porque a RTP, sendo ao mesmo tempo do Estado e comercial, não deve, entretanto, recorrer a meios disponíveis aos outros, caso da contratação milionária de "estrelas" do ecrã.

Como, entretanto, não consegue escapar à escolha do juízo final, que é o da audiência, procura, esquizofrenicamente, dizer que faz "serviço público" (e também faz) ao mesmo tempo que desespera para manter audiência que a sustente política e comercialmente através duma programação igual à dos canais comerciais. Vários dos seus principais programas "populares" são versões de programas da TV capitalista internacional.

O nível de frustração entre jornalistas e restantes trabalhadores não tem comparação com a concorrência. Por vezes têm assomos de crença na "empresa", mas logo o "sistema" os come e manda para a fossa psicológica, quando não para a prateleira. Acreditaram no inacreditável: que é possível mudar a RTP. Mudar o quê? Eu cá não sei: a sua condição de empresa do Estado e, por vias directas ou indirectas, do governo que está, a sua condição de prostituta do regime?, mudar a incultura da empresa?, mudar a empresa que todos querem que continue assim — administrações, chefias, o seu silencioso "Conselho Geral Independente", o parlamento, as outras instituições do Estado e também de fora dele, se calhar também o povo, que gosta da existência da RTP mas pouco ou nada a vê?
O que escrevo é motivado pelo mais recente episódio da RTP, que não será o último, a substituição da Direcção de Informação. Mas precisaria de três páginas do CM para o descrever e escalpelizar. Nem o CM nem os seus leitores o merecem. A RTP que se amanhe — enquanto nos obrigam a pagá-la.

A ver vamos
Tancos
Opinião pública derrubou o ministro
Jornalistas com microfones, vamos lá: perguntem ao chefe do Estado-Maior do Exército, ao primeiro-ministro e ao presidente da República se sabiam da encenação de Tancos antes de a PJ a deslindar. Anda por aí a especular-se que sim. Os portugueses merecem saber. Costa manteve Azeredo, o pior ministro da Defesa de sempre, até ao limite. Porquê? O presidente não exerceu a prerrogativa de chefe supremo das Forças Armadas. Porquê? Não precisamos de teorias da conspiração, mas de factos comprovados.

Azeredo, que em três anos e meio permitiu e ajudou a bandalheira no Exército, só saiu por causa do clamor público, por causa da informação jornalística que o permitiu. Com Costa e Marcelo, só teremos sempre o contrário da luminosa "transparência" e do "cabal esclarecimento" que sempre apregoam desejar. Teremos sempre o cinzento das ratazanas. Sem oposição política, apenas sobra a imprensa para conhecermos o anormal funcionamento das instituições.

Já agora
Rio: mais um que quer a imprensa menos livre
O líder do PSD, maior partido parlamentar e da oposição, Rui Rio, quer novos procedimentos contra a liberdade de imprensa. Como não se o vê a fazer oposição, concentrou-se na sua psicose contra os jornalistas e as livres investigação e publicação. A geringonça agradece: Rio não faz oposição e ataca o jornalismo que esclarece o público.

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