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Formigas insufladas

15 de setembro, 00:30

Portugal não é um país pequeno. Só não tem é nem muito território nem muita população.

Ontem, Carlos Anjos escreveu neste jornal o óbvio: todos nos tornamos especialistas em "ler sinais" depois de sabermos o resultado. Aos que "já sabiam tudo" prefiro sinceramente a vizinha de baixo que diz: "Nunca pensei que fosse serial-killer, era sempre tão bem-educado". Os mais sensatos sabemos que, a "ler sinais", erramos mais do que acertamos; os mais nabos convencem-se, depois de terem lido o relato ou visto na tv, que são muito bons a adivinhar coisas.

Também me tira do sério a "coragem física" de dirigentes gorduchitos e nitidamente em baixo de forma quando crescem para um inimigo, "agarrem-me senão vou a ele". O busílis está no "agarrem-me". Um tipo com guarda-costas convence-se, vaidoso, que o mérito de os outros se encolherem é dele. E depois perde a noção: "Anda cá se és homem."

O mesmo com algumas pessoas ao volante: enfiadas num carro, perante peão ou ciclista, rosnam com desprezo: "Um piparote e limpo-te o sebo". Erro infantil: confundem a potência do veículo com a sua, como os outros costas quentes com coragem. E, assim, vão adquirindo uma imagem distorcida do seu real impacto no mundo e nos outros.

Ora isso acontece também com esta coisa linda que dá pelo nome de língua portuguesa. Todos conhecemos a anedota da formiguinha, que, indo estrada fora, ao lado do elefante, a certa altura exclama: "Eh, olha para a poeira toda que nós estamos a levantar!"

Portugal tem apenas dez milhões de habitantes, um milhão a menos que, só por si, a cidade de S. Paulo. Até aqui nada de mal. É um facto. Portugal não é um país pequeno. Só não tem é nem muito território nem muita população.

O problema começa quando ainda nos achamos donos da língua. Um pouco como quem ainda se julga dono do prédio onde morou o bisavô – prédio esse que, entretanto, foi ganhando outros inquilinos.

Com os seus 207 milhões de habitantes, o Brasil é hoje o grande pivô da língua portuguesa. E, num futuro próximo, Angola e Moçambique: dois países gigantes nas duas costas de África, com uma importância geoestratégica que Portugal já não tem. Lamento, nem sequer a base das Lajes. É outro facto.

E a coisa vira mesmo ridícula quando a formiga, na estrada, se volta para o elefante a dizer: "Já viste a poeira toda que eu estou a levantar?"

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