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Igreja e pedofilia

15 de setembro, 00:30

Será boa ideia revisitar os temas do celibato e do segredo religioso?

Francisco, o Papa argentino, foi objeto de polémica na eleição. Surgiram logo acusações de que teria sido conivente com a ditadura militar do seu país. Tais imputações foram desmentidas pelas vítimas da alegada conivência. O seu curto pontificado tem-se caracterizado pelo culto da simplicidade, por preocupações de justiça social e por uma visão inclusiva da Igreja.

Se me coubesse definir Francisco em contraste com o seu predecessor, diria, em sentido não exclusivamente metafórico, que é um Papa que não veste Prada. A recusa da ostentação, a que o Vaticano parecia tão afeiçoado, e um sentido de humor desconcertante granjearam-lhe níveis de popularidade elevados. De fora da própria Igreja Católica têm vindo os sinais de apreço.

Porém, os casos de pedofilia que abalam a Igreja (sobretudo, mas não só, na Irlanda e nos Estado Unidos) converteram Francisco num Atlas vergado pelo pecado do mundo. Certos meios político-religiosos não lhe perdoam a denúncia de injustiças sociais e desastres ambientais ("O dinheiro deve servir e não governar!", disse) e pretendem responsabilizá-lo por esses casos.

Não basta permanecer em silêncio e rezar para proteger as crianças dos abusos sexuais a que foram sujeitas por quem devia prestar-lhes assistência religiosa. O silêncio terá, até, favorecido a prática desses crimes. Francisco não o ignora. Assim, reuniu o Conselho dos Cardeais e convocou os líderes das Conferências Episcopais, incluindo o Cardeal Manuel Clemente.

Francisco surge como progressista em matérias sociais e conservador em matérias teológicas e de costumes: ordenação das mulheres, união homossexual... Enfrenta agora uma prova de fogo em "terreno neutro". Como defender as crianças? Não será boa ideia revisitar os temas da sexualidade (celibato incluído) e do segredo religioso - quando encobrir a prática de crimes?

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