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Infantilidades

13 de outubro, 00:30

Alguém precisa de explicar que não é possível, no mundo real, termos sempre a última palavrinha.

Se eu fosse juiz, deixaria os detidos de Alcochete saírem agora da preventiva e aguardarem julgamento em liberdade provisória. É que já lá vão cinco meses. Depois, em tribunal, ver-se-ia se (e quais) seriam de novo presos. Não é só por eu ser um coração mole, é por acreditar que a maioria deles são perigosos, sim, mas para si próprios. E arrepia-me que um advogado de defesa, como foi ontem aqui noticiado, diga que "quem devia estar detido era Bruno de Carvalho" em vez do seu cliente.

Atenção: nada tenho a favor de Bruno. Fosse meu filho, e eu talvez revisse a minha política educativa de não dar açoites nos glúteos. Mas choca-me a leviana facilidade com que desejamos (e reclamamos até) que outros que não ‘os nossos’ sejam presos.
Anda no ar um entusiasmo infantil em ‘expulsar’ e ‘prender’ que me lembra a alegria com que, na minha infância, disparávamos pistolas imaginárias e dizíamos "Pan, estás morto".

(Nota: nenhum deputado do PAN foi maltratado nesta onomatopeia. Já agora, onomatopeia parece difícil mas designa coisas simples: aqueles sons que fazemos a representarem coisas, tipo ‘bang’ para um tiro, ‘crás’ para um estrondo, ‘paf’ para uma bofetada.)

Adiante. Fernando Pessoa escreveu vai para cem anos um poema muito engraçado e que ainda hoje se nos aplica: "Nunca conheci quem tivesse levado porrada/Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo." O magano do poeta apanhou-nos bem esta tendência infantil para, quando contamos uma discussão, concluirmos com bazófia: "Eu aí virei-me e disse-lhe das boas. E ele/a ficou-se! Nem um pio!"

Alguém precisa de explicar a esta boa gente que não é possível, no mundo real, termos sempre a última palavrinha – ou sequer termos sempre razão. Que nem sempre somos "campeões em tudo".

Agora o prof. Cavaco Silva publicou mais um volume de memórias. Bem-haja. O que me espanta é como, nos seus relatos de confrontos com outros, ele se ponha fatalmente como tendo ‘sempre razão’. E, a cereja no bolo-rei, saindo sempre ‘por cima’. Não é credível, amigo Aníbal. Caramba, hoje em dia até nos filmes da Disney os heróis têm o ocasional defeito.

Além de que não é possível haver em Portugal duas pessoas que nunca erram e têm sempre a última palavrinha. Esse lugar já está ocupado. Por mim.

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