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Memórias falsas

16 de setembro, 00:30

O cérebro humano retém aquilo que nos acontece de forma limitada.

Quando nos lembrarmos de alguma coisa, de uma viagem, de um passeio no campo, de um almoço com amigos, em tempos que já lá vão, temos a sensação de que tudo se passou como nos lembramos. O funcionamento dos tribunais, os depoimentos, a inquirição de testemunhas, etc., assentam na capacidade de as pessoas se lembrarem do que aconteceu. E o problema – além de mentirem… – é que as pessoas se lembram de situações e detalhes que de facto não aconteceram.

O cérebro humano retém aquilo que nos acontece de forma limitada. A memória é frágil. Não funciona como um armazém que guarda as situações tal qual elas aconteceram. "Funciona mais como um sistema reconstrutivo, que liga e religa situações e os seus vários aspectos", comenta Kate Jeffery, num estudo da University College de Londres (UCL). O reavivar de memórias faz com que aquilo que nos estejamos a lembrar venha de novo a ser guardado, por vezes, de uma forma diferente. Aliás, todos poderemos constatá-lo. Numa história que tenhamos contado muitas vezes, se pensarmos bem, às tantas já só nos lembramos de contar a história… com diferenças aqui e ali, e não do que de facto aconteceu. Quando pensamos a fundo, tentando saber como tudo se passou, tentando lembrar-nos dos factos concretos, das palavras exactas, tantas vezes já não o conseguimos. Quem conta um conto acrescenta um ponto, diz o ditado. E de ponto em ponto, muda a memória e muda o conto.
Nos últimos anos, a ciência tem estudado os vários processos de alteração de memórias. Em experiências com animais tem sido possível manipular recordações. Por agora, tem-se mudado apenas conteúdos emocionais; por exemplo, tornar a ideia positiva de um determinado local numa ideia negativa, passando assim os animais, com base nas suas recordações – falsas –, a evitar esse lugar. Poderá não se estar longe da criação de memórias humanas falsas.

As pessoas de facto não registam tudo o que lhes acontece. O critério de fundo das recordações, a razão por que umas memórias são preservadas e outras não, mais do que a veracidade, é a sobrevivência; mais depressa registamos algo conforme ao que entendamos que nos possa vir a ser útil, do que conforme ao que de facto se passou.

Lembramo-nos daquele passeio de barco, num bonito barco azul pelo Douro acima, há muito tempo… Mas um dia, estamos em arrumações lá em casa e deparamos com fotografias desse passeio… e o barco não era ‘muito bonito’ e era encarnado… e ficamos baralhados.

Concluindo, há falta de memória e há memórias falsas. E entre uma coisa e outra, calma e humildade porque tudo pode bem ter sido de outra forma.

Antiga ortografia

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