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O alcatrão da morte

13 de agosto, 00:30

Continuamos a olhar impávidos para o genocídio das estradas, mas somos todos corresponsáveis pela carnificina.

Já não choca ninguém: mais um par de crianças mortas, mais um conjunto de famílias destruídas. Só no ano passado morreram mais de 500 pessoas nas estradas portuguesas, muitos milhares em toda a Europa e milhões no mundo inteiro. Atenção, estamos a falar apenas de 2017!

Basta tomar um par de anos como amostra e ultrapassamos largamente os mortos verificados nos conflitos da Síria, da Líbia ou do Afeganistão. Mas não choca tanto. Não envolve armas nem discursos de ódio. Não envolve políticos radicais nem comícios empolgantes. Mas destrói de forma corrosiva e permanente famílias inteiras. E deixa-nos a todos, sem nos apercebermos, infinitamente mais pobres.

Não é apenas à lei que se devem as absurdas taxas de mortes na estrada em Portugal e na União Europeia. Nem aos sucessivos Governos, naturalmente! Há, no entanto, dois fatores que sobressaem neste drama mortal a que nos habituámos a assistir todos os anos: a ausência de responsabilidade do Estado e um sentimento cívico muito forte de desculpabilização.

Não vale a pena fugirmos ao óbvio: a cidadania irresponsável. A palmadinha nas costas de quem se prepara para conduzir embriagado, o "obviamente estás bem para conduzir", a "chatice do cinto de segurança", as "autoestradas alemãs sem limite de velocidade", quem de nós não proferiu já estas palavras? Somos todos, pois, corresponsáveis por esta carnificina anual nas estradas.

Mas também o Estado e os tribunais têm de assumir a sua responsabilidade. Onde estão as efetivas sanções pela má condição nas estradas? Ou pelas grotescas construções rodoviárias em tantas zonas do país? E o que dizer das ridículas sanções penais a quem é apanhado uma, duas e três vezes sem carta ou com taxas elevadíssimas de álcool no sangue?

Neste autêntico drama humano vamos deixar de apontar o dedo aos outros e começar a olhar para dentro, porque todos temos, de alguma forma, as mãos sujas com o alcatrão da morte ou da invalidez permanente de tantos portugueses.

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