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O coração nas mãos

09 de dezembro, 00:30

O Justino rebentou às gargalhadas, parecendo que sufocava.

Uns compreenderão que assim seja, a outros parecerá cobardia e fraqueza, mas neste tempo é arriscado defender princípios, pois em menos dum ai nos colam a etiqueta que lhes convém e empurram-nos para onde não queremos ir.

Ao Justino Madureira faltam sete meses para a reforma, conta ele que só depois, com o coração nas mãos, é que irá desabafar. Até lá fica de boca calada, não quer chatices, as que tem bastam e sobram. Todavia, como a política o apaixona, e possui verdadeiro talento para o desenho, entretém-se no café a esboçar o retrato de ministros e figuras públicas, compensando assim o silêncio a que se obriga quando alguém quer saber das suas convicções.

Diz que não é como pensamos, mas nota-se que são mais artísticos os retratos daqueles com quem simpatiza, enquanto nalguns dos outros deixa traços de caricatura, exagerando os beiços deste, o olhar acarneirado daquele, as pernas arqueadas dum terceiro, as sobrancelhas doutro.

Contudo, quando se impacienta, há um ponto em que, adversários ou correligionários, a todos mete no mesmo saco, lastimando que em quase meio século de Democracia não tivéssemos tido um político, um único, que se destacasse por ter proferido daquelas frases históricas que marcam uma personalidade, ficam gravadas na memória colectiva, e são repetidas em ocasiões solenes.

Ministros, Primeiros-Ministros, Presidentes da República, líderes partidários, aparecem uns, desaparecem outros, o Justino Madureira desafiou-nos a nomear um que, numa bela frase, tenha exprimido um sentimento superior, e mereça ser citado, à maneira do que se faz com as de Churchill.

Como quase sempre acontece nestas cavaqueiras de café, uns sorriem, outros encolhem os ombros, e se entre os presentes há diferenças de idade e de interesse, passado o momento de atenção cai-se na piada.

Também desta vez assim foi, e um sujeito encostado ao balcão gracejou que a frase de Sócrates na Cimeira de Lisboa em 2007 - ‘Porreiro, pá!’ - poderia não ser solene, mas a verdade é que tinha dado a volta ao Mundo.

Ninguém reagiu, esqueceu-se o assunto, falou-se disto e daquilo, até que sem mais nem menos o Justino rebentou às gargalhadas, parecendo que sufocava.

- Esta é boa! Olha do que me fui lembrar! Será porque se falou no gajo? Algum de vocês conhece a resposta do Presidente González, do México, quando lhe perguntaram o que tinha feito para ser tão rico?

Como nenhum de nós sabia, soletrou-a ele com um sorriso malandro: "Um político pobre, é um pobre político."

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