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O factor Bolsonaro

14 de outubro, 00:30

Bolsonaro vai dar uma metralhadora a cada brasileiro…

Mateus é um apaixonado pela mulher, Aparecida, e pela filha de nove anos, Teresinha. Logo a seguir, venera Lula da Silva, o ex-Presidente condenado, o tal que inventou a "cesta básica" e concedeu esperança a milhões de pobres brasileiros. Mateus é brasileiro, nordestino do sertão. Conheceu Aparecida (Cidinha) na sua cidade- -natal, lá onde o sol queima a terra e a seca tudo engole. Migram os dois para o Rio de Janeiro na década de 90. Um primo emigrante em Lisboa desinquieta Mateus para a grande aventura. Há uma década, Mateus aterra em Portugal, trabalha no duro e consegue trazer a sua Cidinha. Um ano depois, nasce Teresa, alfacinha filha de caipiras. Há cinco anos, a mãe e os irmãos insistem muito: "Venha, menino! O Brasil está melhorando!" Mateus pega na família, conta os tostões e abre um boteco no Rio. Serve "imperiais" acompanhadas por bolinhos de bacalhau. Fãs do pernambucano Lula, Mateus e Cidinha votam no PT. De repente, a vida meio desafogada entra em derrapagem, tal como a política e a economia brasileiras. Há o caso ‘Mensalão’, rebenta o ‘Lava Jato’, cai Lula, entra Temer. De repente são todos corruptos, segundo a imprensa e o Ministério Público. Poucos conhecem um tal Bolsonaro. Ainda brincalhão, Mateus faz sucesso com as suas tiradas. "Encontram-se corruptos em várias partes do Mundo, quase todas no Brasil." No boteco, Mateus tenta aguentar o barco. "O problema da Democracia é que quando o povo toma o palácio, não sabe puxar o autoclismo!" E segura os mais intelectuais com piadas políticas. "Os socialistas são contra o lucro. Os capitalistas são apenas contra o prejuízo!"

Há uns três meses, sem aviso, Mateus fecha o boteco, pega em Cidinha e na filha e zarpam todos para Portugal. O antigo patrão recebe-o de braços abertos no restaurante onde serviu à mesa. Mas Mateus já não sorri daquele jeito quente, muito menos a sua Cidinha. Há uma névoa de tristeza nos olhares e nas palavras. Velhos clientes brincam com Mateus. "O Bolsonaro é que vai pôr o Brasil na ordem! Vai dar uma metralhadora a cada brasileiro..." Mateus tenta sorrir. Os amigos insistem. "Estás lixado! És pobre e escurinho, o Bolsonaro desterra-te para a Amazónia!" Mateus, coerente e casmurro, votou no domingo em Haddad e no PT, sempre a pensar em Lula. Cidinha, dentes cerrados e lágrima no olho, abandonou as suas convicções: votou Bolsonaro. Poucos sabem que, no início deste ano, Cidinha foi violada num beco do Rio quando trazia a filha da escola. Teresinha, chorando, viu tudo. Mateus, que nunca usou arma, pensou fazer queixa na polícia. Desistiu. Segundo uma sondagem do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, um terço da população considera que, nos casos de estupro, a culpada é a mulher.

Antiga ortografia

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