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O mistério do espermatozóide

16 de setembro, 00:30

‘O esperma 18 está dentro da bexiga…’, explica Tomás. António, expedito, duvida.

A discussão começa com uma palavra difícil: o que é o espermatozóide?! Tomás e António têm uns 11/12 anos, estão no 6.º ano. No jardim, Tomás atira de rompante: "Tu nem sabes o que é o esperma 18?!" António fica baralhado. "Esperma 18?! Sei pois! Quer dizer..." António, espertalhaço, aprende tudo de ouvido, para quê abrir os livros? Espermatozóide, na sua original apreensão fonética, é entendido como "esperma 18". Palavras puxam conceitos e imaginação, e numa coisa estão os dois de acordo: espermatozóides, ou esperma 18, servem para fazer filhos. Quem lhes disse? O Zeca, que já tem 14 anos e ainda frequenta o 6º ano, além de vários cafés do bairro, o que lhe dá uma experiência inatacável. "O esperma 18 está dentro da bexiga!", explica Tomás. António, expedito, duvida. "Não está nada! O espermatozóide está dentro dos tomates!" Mais difícil é entender essa coisa intrincada do "fazer filhos". Como é que o esperma 18 vai parar à barriga das mulheres?! António e Tomás têm algumas teorias. Bem vistas as coisas, teorias truncadas e baseadas nos vários livros/manuais, desvairados métodos e controvérsias sobre como é que se deve leccionar a Educação Sexual nos primeiros anos de escolaridade.

Há umas décadas, este tipo de paleio entre rapazitos teria lugar em tom sussurrante e muito menos engraçado. O Estado Novo, em 1936, oficializou o livro único, entre a 1ª e a 4ª classe. Tudo para acabar com a "anarquia pedagógica do demo-liberalismo de vários autores desconhecidos, bem como as ideias contrárias à acção formativa dos valores da Nação". Quanto a pénis e vaginas, filhos e espermatozóides, nada de poucas-vergonhas educacionais, cada um desenrascava-se como podia. Alguns apreendiam a teoria, discretamente, com o primo ou irmão mais velhos. Quanto aos desprotegidos sem família, arrebanhados por instituições estatais ou de caridade, arriscavam-se a aprender e a sentir tudo na carne e no espírito. Volta e meia apareciam uns senhores simpáticos, que os levavam a passeios e a estranhas festarolas, com o discreto beneplácito dos educadores. O Papa Francisco há-de ter lido muitos relatos destas acções, tantas em nome de Deus e da Igreja.

António e Tomás sabem que nunca os seus professores lhes explicaram claramente essa coisa de fazer filhos, nem como é que esse tal esperma 18 vai entrar na barriga das mulheres. Mas de uma coisa o Ensino se gaba hoje: está no programa alertar os alunos para possíveis aproximações abusivas, vulgo assédio sexual. Quanto ao esperma 18 e à procriação, António revela ao amigo a atrapalhada pedagogia do pai: "Ele diz que só me explica tudo quando eu arranjar uma namorada!"

Antiga ortografia

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