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Os novos evangelistas dos ecrãs

16 de setembro, 00:30

O confessionário da igreja tornou-se público no ‘big brother’ e em tantos outros programas.

Fragmentadas as sociedades e a comunicação, acentuou-se um novo desconcerto do mundo para quem precisa de orientação: muitos já não sabem o que querer e até o que crer. A secularização dos Estados e da sociedade afastou a orientação religiosa, que era uma orientação moral.

O entretenimento, novo império do mundo, tomou em boa medida esse espaço: depois de rarearem fiéis nos templos e padres e evangelistas nos ecrãs maioritários, os novos ocupadores de tempo pelo espectáculo — ‘entertainers’, sem tradução em português — tornaram-se crescentemente moralizadores.

Dizem-nos o que está certo pensar, o que está certo fazer, o que está certo dizer. São, em parte os criadores dum moralmente correcto que antes estava no templo e agora está em todos os televisores, computadores, telemóveis. O secreto confessionário da igreja tornou-se público no ‘Big Brother’ e em tantos outros programas. As Cristina Ferreira e Júlia Pinheiro todas as manhãs comentam o Bem e o Mal. São apenas a ponta do icebergue.

O moralmente correcto está nas passadeiras de Hollywood, quando vestidos negros exibidos com exibição exibicionista cobrem os corpos de actrizes em acção política contra o assédio sexual; está na gala dos Globos de Ouro, quando R. Guedes de Carvalho exprime a sua posição sobre o caso particular duma amiga e apresentadora; está num concerto dos U2, quando Bono se veste de palhaço para uma qualquer mensagem política; está no corte de ténis, quando Serena, a perder, diz que o árbitro é ‘ladrão’ porque ela é mulher e mamã; está no televisor quando um entertainer, Noah Trevor, no seu ‘Daily Show’, dá uma lição de moral a milhões de espectadores sobre o episódio Serena Williams-Carlos Ramos.

Assiste-lhes a liberdade de opinar. Mas interessa aqui, só, este novo fenómeno, que transferiu a orientação ideológica da sociedade, ou parte dela, para ‘entertainers’. Há estudos de opinião que indicam que a influência desta nova elite de topo nas decisões da opinião pública, incluindo a dos seus fãs, é mínima na Europa (e mais presente nos EUA), mas imenso tempo dos media é ocupado com lições morais por gente cuja especialidade é cantar, actuar, jogar e apresentar.

As suas opiniões são decerto válidas, mas não têm contrapartida quantitativa de outros, com outras opiniões, e porventura mais preparadas. São pesos pesados da moralidade. São os novos evangelistas, os novos tele-evangelistas, que voluntariamente ou não, inculcam uma moralidade politicamente correcta com um contraditório nulo, silencioso ou até silenciado. Ficam saudades do tempo em que os ‘entertainers’ se concentravam em entreter.

Pedrógão: até no povo há corruptos
A escandaleira em Pedrógão é tão grande, como reportagens e entrevistas na TVI têm revelado, que se pode dizer que até no povo houve ladrões.

Desde a incúria e incompetência e talvez mais no governo, como indicia o suspeito afastamento do Instituto de Habitação da avaliação e decisões sobre casas e pagamento de obras, até ao cidadão que sabe estar a cometer uma fraude para receber milhares de euros, de cima a baixo, incluindo o repulsivo presidente da Câmara e outros autarcas, a corrupção moral e material é geral e devastadora.

É difícil imaginar pior. Depois de toda a solidariedade nacional prestada a Pedrógão, a começar pelo presidente da República até ao cidadão de poucos recursos que fez uma donativo, todos foram espezinhados e enganados — todos os portugueses.

O Estado mostrou a sua face criminosa, convidando até cidadãos a serem-no também para receberem casas. Ana Leal (TVI) prestou e presta mais um excelente serviço público.

Espanha: o PREC na TV pública 
A RTVE está num PREC mais intenso do que o da RTP ou Diário de Notícias em 1975. São mais de 70 os profissionais despromovidos ou despedidos por uma administradora única, sem mandato regular, e pelo seu adjunto: uma purga à soviética muito superior à do governo anterior.

Por cá as coisas fazem-se diferentemente, ao modo ‘português suave’.

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