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Viva Bruce Lee

08 de dezembro, 00:30

Hoje até a gastronomia vem da América, ou do seu satélite Inglaterra.

Aconteceu um pouco por todas as salas de cinema chinesas, em 1972. O filme também veio cá: ‘A Fúria do Dragão’, com Bruce Lee. Eu era fã, como toda a malta da minha rua.

Bruce Lee era incrível: lutava mãos nuas e pé no ar contra os rufiões, rapidíssimo, sem fantasias, o que a câmara filmava era o que ele sabia fazer. Jackie Chan pode ser mais cómico e Jet Li quase tão lesto, mas são derivados.

E o que aconteceu foi isto: na China ocupada e humilhada dos anos 30, Bruce Lee enfrenta um ror de inimigos para vingar uma afronta. E, quando os derruba, estica o punho para um dos adversários caídos (ou seja, para a câmara) e diz com voz firme: "A China não vai ser mais o fracote doente da Ásia". Ao ouvir isto, toda os chineses na plateia se levantavam a aplaudir freneticamente.

Esta simples frase num mero filme de Kung Fu redimia um povo humilhado e pisado. Agora o gigante acordou.

A China usa a sua excessiva liquidez financeira para ‘comprar tudo’? Tem crescimentos económicos, catástrofes e milagres numa escala que não pode ser medida pela da Europa? A sua novel classe de ricos novos-ricos é por vezes boçal no trato? Começa a ter um senhor poderio militar?

Bem, substituam ‘China 2018’ por ‘EUA 1918’ e a coisa não ficará muito longe. Faz um século os Estados Unidos deram conta do seu extraordinário poder e a Europa, mãe disto tudo, acordou anã, pequenina, vetusta. 1945 foi o golpe de misericórdia.

Oh, por ainda mais algum tempo Paris continuou o centro do mundo, até para os americanos, ainda espantados com o seu súbito poder. Basta ver os filmes: ‘Um americano em Paris’, ‘Dois americanos em Paris’, ‘Woody Allen em Paris’. Depois a ficha cai.

E hoje até a gastronomia vem da América, ou do seu satélite Inglaterra: o que têm em comum o ‘Chef Ramsay’, Jamie Oliver e Tony Bourdain? Representam a tomada de poder do último reduto cultural que ainda pertencia à velha Europa: o estômago.

Não há muito, troçávamos de ingleses e americanos, pela sua pobre comida e ainda mais infeliz bebida. Agora até na alta cozinha metem o dedo. O mundo está mesmo sempre rodando.

E o poder está regressando a casa. À grande China, a milenar China, que nos deu o papel, a pólvora, Confúcio.

E, desta vez, cheia de papel. E, qualquer dia, de pólvora.

Maio de 2018
Macron acaba de cair do pedestal. É o que acontece a quem se embriaga com o sucesso. O desnorte do Napoleão da alta finança lembra Maria Antonieta: quando lhe responderam que o povo protestava por não ter pão, ela terá dito «Então porque não comem antes croissants?» É verdade que haverá infiltrados nos protestos.

Aliás, cada participante é por si mesmo um infiltrado, dado que não há ali um centro organizado, antes um caos que vai e vem, como as marés.

Fúria, frustração, desespero não são bons conselheiros, mas onde estão os bons conselheiros? No palácio do Eliseu é que não, com certeza. Torres de marfim e sobranceria mimada dão nisto.

Entretanto, estamos em dezembro de 2018, mas Paris mais parece maio de 68. Maria Antonieta perdeu a cabeça. A França parece de momento ter perdido a razão.

Um lobo solidário
Paris, esta semana. Um polícia vai ao chão e um grupo feroz cai-lhe em cima aos pontapés. Os agressores não são se calhar más pessoas. Mas uma matilha embriaga: dá a sensação de poder e impunidade.

Tal como a tecnologia (um automóvel, uma pistola, um camião), o grupo transforma o fraco em forte e o cobarde em corajoso.

Gente que sozinha seria inofensiva em bando transforma-se. E por vezes comete crimes. Depois, se apanhada, a matilha faz beicinho. "Eeeeu, sô doutor juiz?"

A natureza humana é uma coisa que nunca se endireita e dá sempre para o torto: umas vezes, o torto mau, outras vezes o torto bom.

No meio da fúria em França, o lusodescendente Miguel Paixão percebeu que no chão não estava um inimigo, apenas um homem caído. Um lobo solidário foi mais alto que a matilha.

O novo jogador
Grande jogador é aquele que sabe ocupar o espaço vazio. Cada dia que passa, Trump encolhe mais a América e deixa espaço a quem o quiser ocupar. Dele duvido que sintamos saudades, mas dos EUA sim. Eram a superpotência cujas regras já conhecíamos. Agora vem aí nova equipa.

Por eles passam milhões
Antiga mente, a quem chateava dizia-se "Vai trabalhar para a estiva". Era o símbolo mesmo de uma profissão dura. Demasiadas vezes o salário obsceno de um gestor bancário é justificado por ‘mexer com dinheiro’. Ora quantos milhões passam pelos braços dos estivadores? Ah, pois.

Animal de marca
Honra lhe seja feita, o PAN é o mais eficiente partido nos dias que correm. Com apenas um deputado, consegue ocupar a agenda política de uma forma notável. Os marqueteiros que passam a vida a falar em ‘marcas’ façam favor de prestar atenção, a ver se aprendem qualquer coisa.

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